terça-feira, 7 de maio de 2019

PAZ


Enxergar e entender a beleza do vazio

Olhar o céu vazio de azul e enxergar as nuvens negras  de chuva e perceber o encanto de suas formas, na fruidez de se desmanchar em água

Olhar a orquídea que calmamente se prepara durante um ano inteiro para a perfeição dos mais belos tons de roxo em formato de flor que vão se abrindo aos poucos para a intensa felicidade dos olhos que as observam repletos de um brilho intenso de pura paz

Olhar a planta na varanda e perceber a luta, em paz, com o vento e com o frio para desabrochar uma única, tímida e linda flor cercada por diversos galhos estrategicamente  vazios para lhe proteger

Olhar o mar em dias vazios de sol, sentir a brisa fresca, a opacidade da água, o encanto do som intenso, quase que ensurdecedor, como que para desviar a atenção sobre a ausência do brilho celeste

Olhar a casa vazia e sentir a paz ouvindo o som doce da água que cai na fonte e o barulho que escapa pelas paredes

Olhar a casa vazia e perceber a tranquilidade das roupas sobre o encosto da cadeira, da cama por fazer, dos pares de sapatos se deleitando sobre o tapete, do relógio esquecido

Olhar a casa vazia e sem pressa apreciar a paisagem através da varanda, observar os transeuntes, o movimento na casa do padre e na casa dos moços, os carros ao longe se aproximando, a montanha cinza, os aviões a pousar  e  as casas empilhadas, saboreando lentamente o néctar da carmeneire

Sentir as entranhas e perceber quantas coisas cabem no espaço vazio, perceber que é possível preencher com coisas belas, mas sem pressa apreciando a própria alma em flor

Ouvir ao longe as palavras

E ele disse: eu não te amo

E ela disse: e quem lhe disse que eu te amo?

É apenas o espaço vazio explorando sensações e pacientemente esperando para ser preenchido com suavidade e com mais beleza, uma beleza gentil que não é a sua

Feito a orquídea que gentilmente responde com belas flores às mensagens lançadas pelas mãos que escrevem, pelos doces olhares, pela verdade, pela gentileza, pela bondade

Copo vazio, moldura sem foto, alma em paz.

Zenaide Galvão 05/09/2009 

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